Mancuso enquanto jogava pelo Palmeiras.
Ex-jogador de Flamengo e Palmeiras é acusado de oferecer certificados para ex-jogadores que queriam virar treinadores sem precisar passar por todo o processo de formação**
Até onde o futebol vai chegar?
Essa é uma das perguntas que ficam depois de uma investigação publicada pelo UOL nesta quarta-feira. O ex-jogador **Alejandro Mancuso**, que teve passagens por clubes como Flamengo e Palmeiras e também trabalhou como auxiliar de Diego Maradona na seleção argentina, é acusado de oferecer licenças de treinador para ex-jogadores que queriam iniciar uma carreira como técnicos.
E o mais impressionante é a forma como isso teria acontecido.
Segundo a investigação, Mancuso oferecia um pacote com quatro licenças de treinador, das categorias C, B, A e PRO, por cerca de **R$ 100 mil**. A promessa era que todo o processo, que normalmente levaria anos, poderia ser resolvido em aproximadamente dez dias.
Ou seja: o ex-jogador encerrava a carreira dentro de campo e, em vez de passar por todo o processo de formação para começar uma nova trajetória como treinador, teria a possibilidade de conseguir as licenças de maneira muito mais rápida.
## Nomes importantes aparecem na investigação
A investigação do UOL cita nomes conhecidos do futebol brasileiro e sul-americano. Entre eles estão **Thiago Silva, Roberto Carlos, Felipe Melo, Alex de Souza, Petkovic, Diego Lugano, Paolo Guerrero, Luiz Gustavo e Paulinho**.
Mas é importante fazer uma ressalva: isso não significa que todos os jogadores citados tenham participado conscientemente de um esquema de falsificação.
Alguns afirmaram que acreditavam estar adquirindo uma forma legal de reconhecimento de suas carreiras ou uma documentação válida para trabalhar como treinadores. Outros teriam procurado justamente a facilidade oferecida.
Um dos nomes citados é o de Paulinho. Segundo a reportagem, ele recebeu certificados pelo correio e afirmou posteriormente que não utilizou os documentos.
Alex de Souza também aparece no caso. O ex-meia já havia realizado cursos da CBF Academy e, mesmo assim, teria adquirido uma licença argentina.
Já Diego Lugano contou que participou de módulos teóricos pela internet, mas não realizou todas as atividades presenciais exigidas na formação tradicional.
## Mas quem autorizou essas licenças?
É justamente aí que a história começa a ficar ainda mais complicada.
Segundo a Associação de Técnicos de Futebol Argentino, a **ATFA**, Mancuso não tinha autorização para representar a entidade, não fazia parte da diretoria e não possuía autorização para negociar ou emitir certificados em nome da associação.
A entidade também informou que os certificados relacionados ao caso eram falsos e não possuíam registro oficial.
A investigação ainda encontrou problemas nos documentos analisados, como QR Codes que não funcionavam, erros de grafia, datas que não batiam e assinaturas que levantaram questionamentos.
Em um dos casos, por exemplo, uma assinatura atribuída a uma pessoa aparecia em um documento com uma data em que ela já não tinha mais vínculo com a entidade.
## Mancuso nega
Procurado pelo UOL, Mancuso negou as acusações.
O ex-jogador afirmou que nunca fez parte da ATFA e que apenas ajudava a fazer a ligação entre os interessados e pessoas ligadas à entidade.
Mancuso também negou ter vendido licenças falsas ou recebido dinheiro dos jogadores.
Só que a investigação apresenta áudios e mensagens em que ele aparece oferecendo o procedimento e explicando como os interessados poderiam conseguir os documentos.
Por isso, o caso ganhou ainda mais repercussão e levanta dúvidas sobre o que realmente acontecia por trás dessas negociações.
## Uma carreira dentro de campo não substitui formação
E talvez essa seja a principal discussão que esse caso deixa para o futebol.
Ser jogador profissional por muitos anos obviamente dá experiência, conhecimento de vestiário e entendimento do jogo. Mas ser treinador é outra profissão e também exige preparação.
Não basta conhecer futebol. É necessário aprender metodologia, treinamento, gestão de grupo, preparação tática e uma série de outros fatores.
O problema é que, segundo a investigação, existia uma proposta para transformar anos de formação em aproximadamente dez dias mediante o pagamento de **R$ 100 mil**.
E aí fica a pergunta:
**Até onde vale a pena ir para conseguir um atalho no futebol?**
O caso envolvendo Mancuso ainda pode ter novos capítulos, mas já deixa uma situação difícil de ignorar: ex-jogadores, documentos questionados, uma entidade dizendo que não autorizou as licenças e uma negociação que chegaria a R$ 100 mil.
No futebol, onde a carreira de um treinador pode começar com uma oportunidade e durar décadas, um documento falso pode colocar muito mais do que uma licença em jogo.
