Medida Provisória assinada por Lula proíbe apostas de quota fixa no Brasil e coloca em xeque uma das principais fontes de patrocínio do futebol nacional
A assinatura da Medida Provisória que proíbe a exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas de quota fixa em todo o Brasil abre uma nova discussão no futebol brasileiro. Além do impacto para o mercado de apostas, a decisão atinge diretamente clubes, campeonatos, veículos de comunicação e outras áreas do esporte que passaram a depender financeiramente das chamadas bets.
A MP foi assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na sexta-feira, 25 de setembro, e entrou em vigor na data de sua publicação. Segundo o governo federal, a medida faz parte de um pacote voltado à proteção de famílias endividadas e também prevê ações contra empresas que continuarem promovendo apostas de forma irregular.
O tamanho do mercado ajuda a explicar a dimensão da mudança. O Banco Central estimou que aproximadamente 24 milhões de brasileiros fizeram apostas entre janeiro e agosto de 2024. Já dados mais recentes do Ministério da Fazenda apontam que o sistema regulado chegou a cerca de 40 milhões de pessoas ativas em 2026.
A expansão foi rápida e transformou as bets em um dos principais investidores do esporte brasileiro. E é justamente aí que começa o problema para os clubes.
Um mercado que mudou o patamar dos patrocínios
Nos últimos anos, as casas de apostas passaram a ocupar os principais espaços comerciais dos uniformes. O movimento mudou o mercado de patrocínios esportivos e colocou valores milionários nas negociações entre empresas e clubes.
Antes da decisão do governo, 15 clubes haviam participado de um manifesto divulgado em 17 de setembro contra a possibilidade de proibição das bets. O documento recebeu o título de “O fim do futebol brasileiro” e defendia que uma proibição poderia provocar forte impacto financeiro no esporte.
O argumento dos clubes estava diretamente ligado ao dinheiro que passou a circular no futebol. De acordo com levantamento publicado pelo UOL em 26 de setembro, 14 dos 20 clubes da Série A de 2026 possuem uma casa de apostas como patrocinadora máster, em contratos que somam pelo menos R$ 910 milhões.
Flamengo, Corinthians e Palmeiras aparecem entre os maiores acordos: o clube carioca recebe R$ 220 milhões fixos por ano, enquanto Corinthians e Palmeiras têm contratos de R$ 150 milhões e R$ 100 milhões, respectivamente. Alguns acordos ainda possuem bônus relacionados a títulos e desempenho esportivo, o que pode aumentar os valores.
Os números mostram por que a saída das bets representa uma preocupação para os clubes. Não se trata apenas de perder uma marca estampada na camisa. São contratos que passaram a representar uma parcela significativa das receitas comerciais das equipes.
Em 2025, os clubes da Série A arrecadaram aproximadamente R$ 1,03 bilhão em patrocínios de casas de apostas, segundo levantamento citado pelo UOL. O valor mostra como o setor conseguiu, em poucos anos, ocupar um espaço que anteriormente era disputado por bancos, empresas de telefonia, montadoras, varejistas e outras grandes marcas.
E quem vai substituir esse dinheiro?
Essa é uma das principais perguntas que ficam para os próximos meses.
Com a saída das casas de apostas, os clubes terão de buscar novos patrocinadores para ocupar os espaços deixados pelas empresas do setor. O desafio está justamente em encontrar companhias dispostas a investir valores próximos aos que as bets colocaram no mercado.
A entrada dessas empresas elevou o patamar financeiro dos contratos. Clubes que antes negociavam seus principais espaços por valores menores passaram a receber dezenas ou até centenas de milhões de reais por temporada.
Por isso, mesmo que outras empresas apareçam para ocupar os espaços, existe uma dúvida sobre a capacidade do mercado de manter os mesmos valores.
O impacto também pode ser diferente para cada clube. Enquanto equipes de maior torcida possuem uma exposição nacional capaz de atrair grandes empresas, clubes menores podem encontrar mais dificuldades para substituir rapidamente contratos milionários.
Um levantamento publicado em setembro apontou que pelo menos 28 dos 40 clubes das Séries A e B mantinham algum tipo de vínculo comercial com empresas de apostas, mostrando que a presença do setor ultrapassou os grandes clubes.
Não é só a camisa
O impacto das bets no esporte não ficou restrito ao patrocínio máster.
As empresas também passaram a aparecer em placas de estádios, propriedades comerciais, transmissões, programas esportivos, redes sociais, conteúdos digitais e acordos com outros setores do futebol.
Isso significa que a saída das bets pode atingir uma cadeia maior de negócios. Emissoras, plataformas digitais, agências de publicidade, influenciadores, clubes e empresas que trabalhavam diretamente com essas marcas também terão de procurar alternativas.
No futebol, o dinheiro dos patrocinadores ajuda a financiar salários, contratações, categorias de base, futebol feminino, estrutura dos centros de treinamento e diversas outras despesas.
Por isso, a discussão não é simplesmente sobre retirar uma marca da camisa. É sobre substituir uma fonte de receita que cresceu rapidamente e passou a fazer parte do planejamento financeiro de várias equipes.
O caso do Mirassol e os clubes sem bet máster
Apesar da forte presença das casas de apostas, nem todos os clubes dependem delas como patrocinadoras máster.
Dos 20 participantes da Série A em 2026, seis não possuem uma bet como patrocinadora principal da camisa. Entre eles está o Mirassol, mas também estão Athletico-PR, Bahia, Coritiba, Internacional e Bragantino.
Isso é importante porque mostra que o mercado não é totalmente dependente das bets. Existem outros modelos de patrocínio e empresas dispostas a investir no futebol.
Ao mesmo tempo, a diferença de valores entre contratos mostra o tamanho do desafio. Os clubes que atualmente recebem dezenas ou centenas de milhões de reais das bets precisarão encontrar empresas capazes de ocupar esse espaço comercial sem provocar uma queda significativa de receita.
O que acontece agora?
A MP já está em vigor, mas ainda precisa passar pelo Congresso Nacional para se transformar definitivamente em lei. O texto prevê a proibição da exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa, além de medidas de fiscalização contra operações ilegais.
Segundo o governo federal, as empresas terão de retirar publicidade e cumprir as regras previstas no novo marco. O UOL informou que sites e aplicativos de apostas deverão sair do ar a partir de 6 de outubro, enquanto as peças publicitárias e marcas relacionadas aos contratos deverão ser retiradas até 5 de outubro.
Para o futebol, começa agora uma corrida por novos patrocinadores.
As bets chegaram ao esporte brasileiro oferecendo valores que mudaram o mercado e elevaram o patamar das negociações. Agora, com a proibição, os clubes precisam descobrir se outras empresas estarão dispostas a pagar valores semelhantes.
A discussão, portanto, vai muito além de “o futebol vai acabar?”.
O futebol brasileiro continuará existindo, mas uma questão financeira ficou aberta: quem vai colocar no futebol os milhões de reais que as bets colocaram nos últimos anos?
Essa resposta poderá definir o tamanho do impacto da saída das casas de apostas sobre clubes, campeonatos e todo o mercado esportivo brasileiro.
