CORINTHIANS MEMPHIS DEPAY (AP)
O que parecia estar muito próximo de um final feliz terminou de maneira completamente diferente. O Corinthians decidiu nesta terça-feira (11) não renovar o contrato de Memphis Depay e encerrou uma negociação que, até poucos dias atrás, parecia caminhar para um acordo. O clube justificou a decisão pela situação financeira e pela necessidade de preservar o equilíbrio das contas, mas, para mim, essa história está longe de terminar. Pelo contrário: a não renovação de Memphis abre uma discussão ainda maior sobre dinheiro, dívida, planejamento, futebol e, principalmente, sobre a relação cada vez mais desgastada entre a diretoria e a torcida.
Não dá para ignorar a situação financeira do Corinthians. O clube realmente precisa colocar a casa em ordem. Não existe mais espaço para contratar ou renovar contratos sem saber como pagar depois. O Corinthians precisa ter responsabilidade, precisa controlar a folha e precisa parar de transformar o futuro em uma conta para o próximo presidente resolver. Até aí, eu concordo completamente com o discurso de responsabilidade financeira. O problema é que, olhando para o caso Memphis, eu não consigo simplesmente comprar a ideia de que o Corinthians “economizou” e pronto. Afinal, Memphis vai embora, mas a dívida continua.
A NOTA DO CORINTHIANS: “SAÚDE FINANCEIRA” FOI A JUSTIFICATIVA
O Corinthians oficializou a decisão por meio de uma nota assinada pelo presidente Osmar Stabile. O clube afirmou que a decisão foi tomada “única e exclusivamente” considerando a saúde financeira da instituição e destacou que assumir um novo compromisso da magnitude do contrato de Memphis não seria compatível, neste momento, com o equilíbrio financeiro necessário para garantir a sustentabilidade do clube.
Eu entendo o argumento. O Corinthians não pode continuar vivendo acima daquilo que consegue pagar. Mas existe uma questão que, para mim, não pode ser ignorada: qual é o tamanho da economia que o Corinthians está fazendo e qual será o tamanho da conta que continuará sobre a mesa?
Porque uma coisa é não renovar um jogador e encerrar completamente qualquer obrigação financeira com ele. Outra coisa é não renovar e continuar devendo uma quantia milionária ao mesmo jogador.
É justamente aí que a justificativa financeira começa a ser colocada à prova.
MEMPHIS ACEITOU REDUZIR O SALÁRIO, MAS MESMO ASSIM O ACORDO NÃO SAIU
Durante toda essa negociação, o que mais me chamou atenção foi a disposição de Memphis em fazer concessões para permanecer no Corinthians. O jogador estava disposto a reduzir seus ganhos e aceitar um contrato mais curto. Além disso, havia uma negociação para que a dívida que o clube possui com ele fosse parcelada e sem a cobrança de novos juros.
O Corinthians tinha, portanto, uma possibilidade de manter um jogador importante e, ao mesmo tempo, organizar uma dívida que já existia. Não estou dizendo que isso necessariamente tornaria a renovação uma decisão correta. Mas acho que a conta precisava ser analisada dessa maneira.
Porque se Memphis fosse simplesmente irredutível, exigisse o mesmo salário, não aceitasse reduzir o contrato e ainda cobrasse a dívida imediatamente, a situação seria muito mais fácil de entender.
Mas não foi isso que aconteceu.
Segundo as informações divulgadas sobre a negociação, havia um acordo para parcelamento de aproximadamente R$ 43 milhões, com Memphis abrindo mão dos juros. Sem esse acordo, a dívida pode chegar a cerca de R$ 77 milhões, considerando juros e correções.
E é aí que eu volto à pergunta que, para mim, deveria estar no centro de toda essa discussão:
O Corinthians realmente economizou ao não renovar ou apenas trocou uma dívida negociável por uma dívida potencialmente muito mais pesada?
MEMPHIS SE PRONUNCIA E AUMENTA A TEMPERATURA DA CRISE
E se a decisão do Corinthians já havia causado revolta entre muitos torcedores, Memphis decidiu se manifestar publicamente poucas horas depois.
Em publicação no X, o holandês afirmou estar “muito decepcionado” e disse que o Corinthians decidiu não honrar um acordo que, segundo ele, já estava estabelecido para uma renovação por mais dois anos. Memphis afirmou ainda que o entendimento havia sido acordado pelo presidente e pelos departamentos esportivo, jurídico e financeiro do clube.
O jogador foi além e deixou claro que pretende tomar providências para preservar seus interesses. Memphis afirmou que foi forçado a reagir com firmeza e que não deixará o que classificou como um “comportamento inaceitável” sem consequências.
E essa declaração muda um pouco o tom da história.
Porque agora não estamos falando apenas de uma negociação que terminou.
Estamos falando de duas versões.
De um lado, o Corinthians diz que não renovou porque a situação financeira não permite assumir um compromisso dessa dimensão.
Do outro, Memphis diz que existia um acordo para a renovação e que o clube decidiu romper esse entendimento.
E agora eu quero ver como essa história vai terminar.
Porque se realmente existia um acordo praticamente fechado, a diretoria terá que explicar por que mudou de posição.
A DÍVIDA PODE SER O GRANDE PROBLEMA DO CORINTHIANS
Para mim, essa é a parte mais preocupante de todas.
Memphis não terá mais contrato com o Corinthians. Mas o Corinthians continua devendo dinheiro a Memphis.
O valor principal da dívida é apontado em cerca de R$ 42 milhões, podendo chegar a aproximadamente R$ 77 milhões com juros e correções. A tendência é que clube e representantes do jogador voltem a negociar o pagamento, mas já existe a possibilidade de a discussão terminar na Justiça caso não haja acordo.
E aí fica difícil falar apenas em economia.
O Corinthians deixou de assumir um novo contrato, mas continua precisando resolver uma dívida que pode ficar ainda mais pesada.
Se Memphis tivesse aceitado receber de forma parcelada e abrir mão dos juros, o clube tinha uma condição muito mais confortável para administrar esse problema.
Agora, sem a renovação, a diretoria precisa encontrar outro caminho.
E se não encontrar?
Aí a conta pode ficar muito maior.
O CORINTHIANS PODE TER PERDIDO MEMPHIS E AINDA FICAR COM O PROBLEMA
É exatamente por isso que eu vejo essa decisão como uma aposta.
O Corinthians apostou que é melhor não renovar com Memphis.
Agora precisa provar que essa escolha vai beneficiar o clube.
Porque se a diretoria conseguir pagar a dívida, controlar os gastos, reduzir a folha e manter o time competitivo, tudo bem. A decisão poderá ser defendida.
Mas se acontecer o contrário?
Se a dívida crescer?
Se o jogador buscar seus direitos?
Se o Corinthians tiver problemas para pagar?
Se precisar contratar outro atacante caro?
Se o time sentir a ausência de Memphis?
Aí a história muda completamente.
Porque talvez o Corinthians tenha economizado no contrato e gastado muito mais para resolver os problemas criados pela própria decisão.
E O FUTEBOL? JUSTAMENTE AGORA O CORINTHIANS PERDE UM JOGADOR DE PESO
E como se a questão financeira já não fosse complicada o suficiente, existe o futebol.
O Corinthians acabou de ser eliminado da Copa do Brasil e agora precisa concentrar suas forças na Libertadores. Só que Memphis não estará mais disponível.
E Yuri Alberto também é desfalque.
Ou seja, o Corinthians chega a um confronto importante contra o Rosario Central, na Argentina, sem duas das principais referências ofensivas do elenco. A equipe terá que encontrar soluções com aquilo que possui, e Pedro Raul passa a ganhar ainda mais importância no ataque.
Eu não vou dizer que Memphis garantiria uma vitória.
Não existe isso.
Mas eu vou dizer uma coisa: eu preferiria ter Memphis disponível para um jogo de Libertadores do que não ter.
É um jogador de experiência internacional, acostumado a decisões e que já conhecia o ambiente do Corinthians. Em um jogo desse tamanho, ter um jogador assim à disposição é uma vantagem.
Agora ele não está mais.
E o Corinthians terá que lidar com isso.
A TORCIDA NÃO ESTÁ ACEITANDO CALADA
E talvez o mais preocupante para a diretoria seja o tamanho da reação que essa decisão provocou.
A Gaviões da Fiel, que vinha defendendo a permanência de Memphis, passou a aumentar a pressão sobre a direção do clube. O cenário é de insatisfação crescente, e a liderança da torcida sinalizou que, após o retorno da delegação da Argentina, a mobilização poderá avançar para uma conversa com a diretoria e manifestações em frente ao Parque São Jorge.
E isso precisa ser tratado com seriedade.
Não porque torcida organizada tenha que decidir contratação.
Não tem.
Quem administra o Corinthians precisa tomar decisões pensando no clube.
Mas também não dá para administrar um clube da dimensão do Corinthians ignorando completamente o que a torcida está sentindo.
O Corinthians é do torcedor.
E quando a distância entre diretoria e arquibancada fica grande demais, o ambiente começa a ficar insustentável.
A Gaviões já mostrou em outras oportunidades que não costuma ficar apenas nas redes sociais quando decide cobrar a diretoria. E agora a tendência é de aumento da pressão depois da decisão envolvendo Memphis.
O QUE MAIS ME INCOMODA NESSA HISTÓRIA
O que mais me incomoda não é necessariamente a saída de Memphis.
É a maneira como tudo aconteceu.
Se o Corinthians tivesse chegado desde o começo e falado: “Não temos condições de manter o jogador, nossa situação financeira não permite e vamos encerrar o ciclo”, seria uma decisão difícil, mas pelo menos clara.
O problema é quando uma negociação avança, existe um entendimento, o jogador aceita determinadas condições e, quando tudo parece pronto, a situação muda.
É exatamente isso que Memphis está contestando.
E agora cabe ao Corinthians explicar.
Não para agradar Memphis.
Não para agradar a torcida.
Mas porque uma instituição do tamanho do Corinthians precisa ser transparente.
MEMPHIS FOI CARO? SIM. MAS QUANTO CUSTA PERDÊ-LO?
Eu não tenho dificuldade nenhuma em admitir que Memphis era caro.
Era.
Um jogador desse nível custa caro.
O Corinthians precisa saber se pode pagar.
Mas também acho muito simplista dizer que “não renovar foi economizar”.
Porque existe o custo da dívida.
Existe o custo de substituir o jogador.
Existe o custo esportivo.
Existe o risco de uma disputa jurídica.
E existe o desgaste político com a torcida.
Tudo isso precisa entrar na conta.
Memphis disputou 79 partidas pelo Corinthians, marcou 20 gols e deu 15 assistências. Nesse período, participou de conquistas importantes, como o Campeonato Paulista e a Copa do Brasil de 2025 e a Supercopa Rei de 2026.
Não foi perfeito.
Mas também não foi um fracasso.
E agora o Corinthians perde esse jogador justamente quando mais precisava de opções.
AGORA O CORINTHIANS PRECISA PROVAR QUE TOMOU A DECISÃO CERTA
Eu acho que o Corinthians tomou uma decisão.
E decisão precisa ser respeitada.
Mas decisão também precisa ser cobrada.
Se a justificativa é financeira, mostre a economia.
Se a justificativa é responsabilidade, mostre como a dívida será paga.
Se a justificativa é planejamento, mostre qual será o planejamento do ataque.
Porque não adianta falar em saúde financeira e, daqui a alguns meses, o clube estar gastando novamente milhões para tentar encontrar um substituto para Memphis.
Aí não teremos economia.
Teremos apenas uma troca de problema.
MEMPHIS SAI, MAS A CONTA FICA
No fim, talvez essa seja a melhor maneira de resumir tudo.
Memphis saiu. O contrato acabou. Mas a conta ficou.
E agora existe uma dívida que pode chegar a dezenas de milhões de reais, um jogador que diz ter sido surpreendido pela decisão, uma torcida revoltada, uma possível mobilização da Gaviões e um time que precisa disputar uma Libertadores sem duas de suas principais opções ofensivas.
Tudo isso ao mesmo tempo.
É muita coisa para uma diretoria administrar.
E, sinceramente, eu acho que o Corinthians entrou em uma situação em que não basta mais explicar a decisão. Vai precisar mostrar, na prática, que ela foi correta.
Porque se a dívida for controlada, o clube economizar de verdade e o time conseguir competir sem Memphis, a diretoria terá argumentos.
Mas se a dívida aumentar, se Memphis buscar seus direitos e o Corinthians precisar gastar novamente para montar o ataque, aí a pergunta vai voltar ainda mais forte:
não teria sido mais barato manter o jogador nas condições que estavam sendo negociadas?
Essa é a grande questão.
E agora, além do campo e das finanças, existe a pressão da torcida.
Memphis já falou.
A diretoria já falou.
Agora falta o Corinthians mostrar o que vai fazer.
Porque Memphis pode ter deixado o Parque São Jorge, mas o problema não deixou o Parque São Jorge.
E a Fiel, pelo que está mostrando, também não pretende ficar em silêncio.
E aí, torcedor: você acha que o Corinthians fez certo ao não renovar com Memphis ou acredita que o clube pode ter criado uma conta ainda maior para resolver? E depois do pronunciamento do jogador e da possível mobilização da Gaviões, até onde você acha que essa pressão pode chegar?
